O que eu noto nesses jovens idealistas comprometidos tão bravamente com as mais diversas lutas sociais, tanto os que se dizem de direita quanto os que se dizem de esquerda (mas principalmente esses últimos), é que eles se constituem em seu núcleo por garotos impacientes e mimados, muitos dos quais, tendo crescido sob boas condições de vida, só conseguem justificar o enorme ódio que sentem contra o que seriam as grandes injustiças do mundo mediante a projeção de suas próprias mazelas particulares, trazidas de experiências estritamente pessoais - rejeições amorosas, problemas familiares, intrigas na escola, inveja de coleguinhas, mesmo o excesso de conforto e crises aborrescentes de toda sorte, que afinal formam o único parâmetro de sofrimento acessível à maioria dessas pessoas -, sobre aquele ente abstrato que frequentemente denominam o "povo pobre e oprimido", o "trabalhador honesto", as "classes menos favorecidas", a "família brasileira", as "minorias perseguidas", etc. E com isso ainda supõem eles medir com uma incrível precisão científica a suposta dor inerente à condição de um sem-teto, de uma lavadeira, de um viciado, de um menor abandonado e por aí vai, ainda que em muitos casos pessoas pertencentes a tais categorias sejam até mais felizes e auto-confiantes que os chorosos benfeitores da sociedade e necessitem de menos cuidados que esses. O pior é que, ao impregnarem um objeto real, como a miséria ou o racismo, com aquele sentimentalismo típico do jovem revoltado com as hostilidades causadas ao seu carente e frágil ego, acabam por se desviar de uma abordagem pragmática das existentes anomalias sócio-econômicas, somente a partir da qual estariam verdadeiramente habilitados a propor soluções efetivas. Tornam-se aptos no entanto a gerar ainda mais desequilíbrios na sociedade, além de agravar aqueles que a princípio estariam combatendo.
Isso ocorre por uma razão muito simples: como não são capazes de enfrentar seus desafios face a face, ou seja, enquanto indivíduos que confrontam individualmente seus respectivos destinos, preferem dar vazão a suas angústias depositando a confiança em soluções mágicas que, em sua cabecinhas, imaginam finalmente vingar todo o mal que sofreram, nesse ponto já atribuído a fenômenos de ordem histórica, psicológica e social que lhes escapa à oportunidade de resolver concretamente enquanto situações muito mais práticas.
Um exemplo disso, que constantemente desponta nos assuntos do dia, é a questão das drogas e da polícia, já tratada em outras ocasiões nesse mesmo blog, que ilustra bem a estupidez tanto dos esquerdistas quanto dos direitistas. Esses últimos, ao erigir toda uma fábula de mocinho e bandido, crendo estar nas drogas a fonte de todo o mal satânico e na polícia a figura dos heróis salvadores da pátria, ignoram completamente o fato de que as drogas, por si, não são a causa nem da bandidagem, nem da péssima saúde dos brasileiros, nem do mau-caratismo de seus filhos - coisas essas que apenas arrumam uma forma de incorporar a droga a si, podendo entretanto existir muito bem sem ela. Ignoram também que a polícia, embora um instrumento de grande utilidade, e diga-se, bastante necessária, não funciona sozinha, sendo essencial a coordenaçao de outros elementos que garantam, junto com ela, a segurança nos espaços públicos, como infra-estrutura adequada, incentivo à ocupação de certas regiões pelo poder oficial, combate à corrupção, e, acima de tudo, abertura para debates que ajudem a elucidar algumas questões para o cidadão comum. Sem essas medidas mínimas, que atualmente se encontram em estágio deficiente no Brasil, a polícia não tem sequer como exercer devidamente sua função. Assim, ela se torna um mero símbolo de afirmação da direita, cujos efeitos politiqueiros contribuem menos para coibir o crime que para manter o status quo de certos governos.
Mas se, nesse caso, a direita peca por incluir em sua onda de indignação policialesca um ímpeto irracional de intolerância às drogas, além de apostar em estratégias de combate pouco funcionais, a esquerda então peca por inverter essa lógica ao ponto de se tornar não só condescendente com a criminalidade, mas também cúmplice do que há de pior no culto desmedido às substâncias entorpecentes, elevadas então ao status de moeda de troca social, com ares de inocência e elegância estética, como ocorre já com cigarro e bebidas alcoólicas. E a "cultura cannabis", a defesa às "minorias perseguidas", a distribuição de "caridades" e todo aquele discursinho mole de "políticas mais humanas" tornam-se por fim o ideal escudo dessa gente. Claro, isso só pode, também, ter conseqüências politiqueiras, beneficiando governos ainda mais ineficientes, corruptos e tirânicos. Assim vemos que esses esquerdistas, naquele anseio incontrolável por exercer o senso crítico da sociedade, que bradam como uma necessidade urgente à manutenção do espírito democrático, só o que fazem no final das contas é reforçar essa nossa base cultural de tendências marxistas, isto é, essa nossa cultura que na maioria das vezes pende mais para a esquerda que para a direita. Talvez percebam menos ainda que isso tudo só tende a gerar ainda mais centralização de poder e abismos cada vez mais largos e profundos entre classes - com óbvia desvantagem para aqueles que confiam cegamente nas cartilhas socialistas, como há décadas vem fazendo o povo brasileiro.
Considerando a direita e a esquerda como os dois braços de um Estado autoritário e manipulador, então podemos dizer que o nosso Estado Nacional é um canhoto malandro que, apresentando-se normalmente como destro, está pronto para bater a primeira carteira surpreendendo sua vítima com uma esquerdinha ainda mais leve e ágil. E se perguntarem a serviço de quem esse malandro age, eu direi apenas que sua quadrilha tem sede nos Estados Unidos da América. Não à toa esses garotos que no passado, ingênuos, lutavam por "ideais nobres", ao finalmente se depararem com a real face daquilo que beneficiaram esse tempo todo, preferem cinicamente trocar seus próprios princípios e fingir que sempre estiveram do lado contrário, talvez por pensarem ser menos trabalhoso ou humilhante admitir que eram usados pelo inimigo e então rever toda sua postura. Eis um resumo dos principais políticos da atualidade, e da trajetória que seguirão em um futuro breve alguns meninos de hoje.
Afinal, o que esperar de estadistas, políticos, intelectuais e funcionários públicos oriundos da gigantesca massa de manobra que compõe esse país senão uma horda de puxa-sacos que se contentam em desfrutar de efêmeros privilégios ao preço de se subordinarem a papéis de míseros cupinchas em esquemas estrangeiros?
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